Quem sou eu

Minha foto
Daniel Frazão
Uma alma morta porém ressuscitada. Um soldado maníaco com uma metralhadora que cospe fogo e palavras. E nas guerras das palavras eu sou veterano. Eu sou o homem-tigre. Somewhere in hell, i'm still typing.
Visualizar meu perfil completo

domingo, 7 de junho de 2009

O ESQUEMA

Sentei-me num banco da praça e permaneci por duas horas. Ainda estava dia, e quando me levantei já era noite. Uma noite imperceptível, como tantas outras.
Em cidades pequenas a rotina se torna mais visível. A rotina se revela inteira, sem vergonhas ou segredos, diante dos nossos olhos. As grandes metrópoles também são pontuadas pela rotina, mas nas cidades pequenas não podemos desviar os olhos dela. É impressionante; tudo o que você vê, você já viu antes.
As pessoas parecem ligadas por telepatia, como uma grande esponja, uma colônia de bactérias, bactérias que juntas tornam-se uma única forma de vida... e bóiam pela água parada, rastejando pelo limo, procurando comida. Como se suas mentes estivessem conectadas umas às outras pela corrente psíquica da rotina.
Subitamente, as ruas vazias se encheram de gente. As pessoas apareceram no mesmo horário; pontuais. Um batalhão de formigas marchando em direção às ruas, todas exatamente no mesmo instante. Era engraçado o modo como as pessoas pareciam ter combinado para surgir naquele mesmo momento. Suas mentes funcionavam como um relógio.
Olhei para um local qualquer de uma esquina qualquer e lá estava o sujeito que todas as noites, no mesmo horário, aparecia por lá e se recostava no poste. Então olhei para os lados e me deparei com os mesmos rostos, sentados nos mesmos bancos, virados para a mesma direção. Era horrível e cômico ao mesmo tempo. Eles não podiam evitar. Eram peças no grande tabuleiro da Rotina.
Você deve estar se perguntando, “por que diabos não fazem alguma coisa para mudar essa condição miserável?” Cara, não seja tão duro com as pessoas. Não vamos condená-las, tá legal? Além do mais, VOCÊ também faz parte do esquema da rotina, e EU também. Não estou salvando os nossos rabos!
Mas não fique aí imaginando que as pessoas não pensam em grandes mudanças. Elas pensam, mas a questão é que as grandes mudanças em que pensam hoje são as mesmas grandes mudanças em que pensaram ontem. Até as mudanças e as guinadas são consumidas pela rotina.
Os carros pareciam iguais e cruzavam as esquinas com seus motores possantes, sempre ultrapassando os mesmos sinais vermelhos. Sabiam que não chegariam longe, por isso não esperavam muito da vida. As conversas da garotada que se aglomerava à minha frente eram as mesmas conversas de todas as noites, e eram acompanhadas por risadas que explodiam exatamente nos mesmos instantes. Se me afastasse deles e me aproximasse do pessoal mais velho, escutaria as mesmas lamentações, as mesmas indignações; todos aqueles ditos adultos com os mesmos problemas. Todos sem cabelos, sem dentes, sem visão, sem sentido, sem esperança, tagarelando com suas vozes tediosas. Nas metrópoles essas coisas se espalham ao longo da orla marítima e dos arranha-céus, nas cidades pequenas fica tudo diante do seu nariz.
Pensei, “que droga, não consigo parar de pensar na rotina, exatamente como faço todos os dias!”. Talvez a rotina seja necessária, seja uma forma de garantir que a chatice será perpetuada através das eras, exatamente como as baratas.
Então apareceu aquele sujeito atravessando a praça: gordo como uma baleia, meia-idade, uma barba gordurosa no rosto, os olhos pequenos atrás dos óculos, os cabelos emaranhados. Carregava uma porção de embrulhos. Tropeçou nos próprios pés e caiu de barriga no chão. Os embrulhos voaram para todos os lados. Sua bunda ficou aparecendo, suada e branca, e os olhos arregalaram quando os embrulhos rolaram pelo chão. Disparei a gargalhar, até que as lágrimas escorressem pelas minhas bochechas. Algo tinha quebrado o esquema.

domingo, 31 de maio de 2009

EU SOU ELVIS PRESLEY


Eu sou Elvis Presley. O Elvis das letras. É, eu sei, soa pretensioso pra caralho, mas é verdade. No que me propus a fazer com essas letrinhas miúdas e pretinhas, fiz como Elvis. Entrei nos estúdios da Sun e, com um pouco de insegurança, disse:
Não me pareço com ninguém.
Como Elvis, eu estava errado.
O garoto caipira de Tupelo quis não se parecer com ninguém, mas escolheu pra debutar com uma canção de Ella Fitzgerald interpretada como Dean Martin. Pois é. Meu caro Elvis, nem sempre você foi original. Diabos, aos 18 anos ninguém é original. Mas voltando ao MEU umbigo... eu também me parecia com um monte de gente; também queria não me parecer com ninguém.
Peguei aquelas pilhas de livros e hordas de autores e fiz a minha saladinha particular de assombrações. Às vezes, eu cuspia Byron na fuça da cidade. Às vezes, mandava uma escarrada de Bukowski a plenos pulmões. Outras vezes, rascunhava o próprio Elvis nos parágrafos.
Assim, aos trancos e barrancos, com mil disfarces e cinco mil fantasias, segui em frente, querendo não me parecer com ninguém e me parecendo com todo mundo. Pois é. A verdade é que todo mundo se parece com todo mundo. Mas pelo menos eu me parecia com todo mundo que estava MORTO, o que me garantia um bom pedaço no palco do egocentrismo. A coisa fica um tanto quanto chata quando nos parecemos com todo mundo que está vivo.
Mas eis que... BANG! Como Elvis, lá estava eu, conseguindo, conseguindo! Finalmente, não me parecia com ninguém. Foda-se Byron, foda-se Bukowski, foda-se Elvis, foda-se Nelson Rodrigues e Machado de Assis. Agora, eu era só eu (e uso e abuso dessa palavrinha maravilhosa de duas letras: eu, eu, eu). E nisso me parecia com Elvis: não me parecia com ninguém. Demorou, mas aconteceu.
Está vendo como não há pretensão alguma nisso? Quando digo que sou o Elvis Presley das letras, não estou perdendo tempo com essa baboseira de rei, maior do mundo, melhor que todos, ser supremo ou coisa que o valha. Me pareço com Elvis porque me pareço comigo. Porque conquistei a minha voz. A minha maneira. My Way.
Aqui estou, cara. Sozinho, comigo mesmo. Com minhas próprias letrinhas cuspidas, escarradas, cagadas e por vezes encantadas. E são as MINHAS letrinhas. Não alguma cópia carbono de algum estúpido fantasma ou – pior ainda – de um vivo débil mental que perde tempo por aí.
Alguns dizem que é coisa da idade. Pessoalmente, DETESTO esse papo de idade, nem pra cima nem pra baixo. Como disse o meu Orkut, toda geração se acha mais inteligente que a anterior e mais sábia que a seguinte. Por isso, idade é papo furado. Outros dizem que tem a ver com experiência. Coisa que também não faz muito sentido, pois você pode ter toda a vivência do mundo e continuar sendo o mesmo paspalho de sempre. Seja lá como for, é muito bom quando você consegue falar com sua própria voz. ESCREVER com suas próprias letrinhas. É infinitamente melhor do que falar, escrever e gozar com fantasmas de pano de chão, por mais grandiosos que esses fantasmas sejam.
Ser Elvis Presley (ou Daniel Frazão, escolha o nome que soar melhor) é um paradoxo. Assim como aconteceu com o pobre Elvis quando se afastou dos holofotes para servir ao exército, agora que saí de cena desponta a enxurrada de Fabians, Paul Ankas e Pat Boones, querendo fazer igual e querendo não se parecer com ninguém. Ai, meu saco...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

1978


Nasci em 1978. O filme que estava em cartaz era Os Embalos de Sábado à Noite. Ou talvez Grease. Como no Brasil os filmes chegam atrasados, provavelmente era Os Embalos de Sábado à Noite.
Agora, assisto o presente passar por mim real e indiferente, sempre tão frágil, e penso numa série de coisas. Foi ano de copa do mundo. O Brasil jogava no dia exato em que nasci, na hora exata. Perdeu. De certa forma foi melhor assim, porque fez com que os médicos retornassem à sala de parto.
John Lennon ainda não tinha tomado o tiro na cuca. Ocupava-se em lavar roupa e levar criança pro zoológico. Um tempo depois, no ano em que morreu, lançou o Double Fantasy, um disco impregnado com esse clima de lavar roupa e levar criança pro zoológico, o que de certa forma acabou soando legal. Mas voltando a 78... Elvis ainda estava fresco no caixão. Encontrei com ele. Coincidimos de pegar o mesmo elevador, eu descendo e ele subindo. Elvis olhou pra mim, naquele silêncio dos elevadores, e disse: “E aí garoto, o que é que você vai fazer lá embaixo? Rock?”. Respondi que não sabia o que ia fazer e então ele me desejou boa sorte.
Village People, meu amigo, era a bola da vez!
Ano estranho, o ano em que nasci. Computador era coisa pra maluco espacial. Bill Gates era um carinha qualquer, de espinhas na cara. Ha, ha. Pensar que um dia eu já tive mais grana que ele...
Ainda não estavam armando o rebu das células-tronco, isso porque o super-homem ainda era super-homem.
As pessoas usavam costeletas e golas enormes. Achavam bonito. Mas se você parar pra pensar, nós também achamos bonito um punhado de coisas que logo parecerão sem sentido. A vida se mostra um simples acúmulo de momentos sobrepondo-se uns aos outros, enquanto dizemos um adeus eterno.
Spectroman era o único programa japonês que passava na televisão. Os caras do CHIPS mandavam no pedaço. E na telona Luke Skywalker reinava supremo. Em 78, você precisava saber o que era um sabre de luz.
Aqui pelo Brasil as coisas estavam esfriando. O pessoal já estava cansado de caminhar e cantar, e só queria sentar um pouco, recuperar o fôlego. Ninguém consegue ser tropical o tempo todo. Começávamos a nos conformar com a miséria humana. Depois de levar muita porrada, acabamos chegando à conclusão de que o melhor era imaginar que os murros não passavam de beijos. Que o horror era amor. Que o silêncio era música. Que o VAZIO era TUDO o que existia.
Foi um ano pra lá de estranho.
Fico me perguntando o que faria se enxergasse todas essas coisas no instante do meu nascimento. O que faria se não fosse apenas um bebê e enxergasse o passado e o futuro brilhando com os bisturis, bem à minha frente? Teria noção do que estava por vir? Ah, 1978... você foi só o primeiro deles! Naquela época eu não podia imaginar que estaria aqui, escrevendo confissões para desconhecidos. Naquela época o ano de 78 me passou tão batido, tão efêmero, tão liso quanto a própria vida, que não imaginei que estaria aqui falando dele, vinte e seis anos depois. E você? O que ganhou dos seus dias estranhos? O que define o que você foi e o que vai ser para toda vida? O que viu em primeiro lugar? O que acha que verá por último?
Se algum dia eu encontrar novamente com o Elvis no elevador (desta vez eu subindo e ele descendo) vou desejar-lhe boa sorte. O cara vai precisar. E vou lhe perguntar se vai fazer rock, e ele vai dizer que não, pois já fez isso da última vez.
_ E você, garoto, o que fez lá embaixo? – ele irá me perguntar.
Coçarei o queixo, olharei pensativo para o teto e direi, mais para mim do que para ele: “Taí uma boa pergunta...”

Teletubbies


Era a primeira vez que eu via uma leitura de poesia de manhã. De qualquer forma, era a primeira vez que eu via uma leitura de poesia. Não estava esperando grande coisa, e só compareci porque tinha sido organizada por um amigo, e era na sua casa. O tipo de compromisso que se vai mais por obrigação do que por vontade própria; aliás, como quase todos os compromissos.
Sentei-me numa cadeira e me estirei, tentando ficar incauto, torcendo para que ninguém me chamasse para ler um poema. Esperando para que começasse a tal leitura.
As pessoas chegavam aos poucos, cumprimentavam o anfitrião, mostravam alguma folha de papel amassada e sentavam numa das inúmeras cadeiras espalhadas pela sala. Meu estômago roncava, porque não tinha tomado café da manhã. Droga de leitura de poemas pela manhã!
Todos aplaudiram quando o primeiro poeta subiu no pequeno tablado. Eu não o conhecia, quer dizer, nunca tinha falado com ele. Era um sujeito com cara de fuinha, vestia um blazer cinzento e equilibrava os óculos enormes na ponta do nariz. Não devia passar dos vinte e poucos e já parecia um corretor de imóveis escrito e escarrado. A fuinha esperou com ansiedade para que os aplausos amainassem e então começou a declamar:
_ Vejo o teu cálido amor nas cores do arco íris... – e seguiu declamando.
Não prestei muita atenção no que ele dizia, apenas me concentrava no modo como os óculos balançavam na ponta daquele nariz. Então entrou o segundo poeta. Vestia um jeans surrado e calçava sandálias franciscanas. Era um moleque de dezenove anos, de cabelos longos e costeletas. Não deve ser ruim, pensei. Começou a declamar, feito uma hiena.
_ A ALVORADA, TÃO LINDA! O HORIZONTE, TÃO AZUL! COMO SÃO BELAS AS TUAS COLINAS! – e por aí vai.
Depois entrou outro e outro e outro e outro. E era sempre a mesma história. Uma espécie de revezamento entre relvas, horizontes, amores, rochas, lindezas, golfinhos e planícies.
Pensei comigo mesmo “meu Deus, estou cercado de teletubbies!”.
E tive que agüentar, um por um, todos aqueles poetas teletubbies subindo no tablado e falando alguma coisa sobre algum animal silvestre que eles, por algum motivo, associavam com o amor e a beleza. Todos esses poetas guardavam suas imagens pueris nos bolsos, para os momentos de emergência. Era só uma questão de combiná-las em estrofes, variá-las no tom, nas imagens e nos desfechos.
Agora eu entendia o motivo da leitura ter sido feita de manhã: é esse o horário dos teletubbies! Assim que a tal leitura acabou saí correndo dali. Já era meio-dia.
Odeio o meio-dia. É a hora mais imbecil de todas. Odeio a claridade do meio-dia iluminando todo mundo. O modo como ela deixa à mostra cada ruga, cada cabeça careca, cada sorriso idiota, cada terno preto dos desocupados, cada zé mané esperando pelo ônibus. Não há música no meio-dia; não se escuta Dear Prudence tocando nas esquinas. Me sinto vazio, completamente perdido e sozinho, completamente desnudo num mundo sem qualquer espécie de sentimentos, onde todos se espremem sob o sol que clareia as vitrines. E não sei o que é pior, o meio-dia ou os poetas teletubbies. Mas talvez a questão não seja essa. Talvez um tenha nascido para o outro. Ou talvez não, talvez um acabe com o outro, mais cedo ou mais tarde.
Olhei para o relógio da praça e vi que fazia trinta graus. Quente. Os estudantes saíam das escolas e caminhavam em grupos pelas calçadas, todos rindo e papeando. Eram os únicos que pareciam não se importar. Sortudos. Imaginei até quando os teletubbies permaneceriam lá, naquela sala, com suas écharpes e seus elogios, fugindo do meio-dia.
para Charles Bukowski
(i miss you as hell)

Você esqueceu o ketchup!


Essa aconteceu com um amigo meu. Ele estava na casa de uma turma de amigos, vocês sabem, se divertindo no fim de semana e tudo mais. Era aquela época da vida em que a gente se diverte simplesmente por estar entre amigos. Depois dessa fase, a diversão vai se tornando cada vez mais difícil.
O pessoal começou a ficar com fome lá por volta das onze da noite e resolveu que ia comprar uns hambúrgueres. Não era uma boa idéia, pois esse meu amigo não tinha nada nos bolsos. “Já que não tem dinheiro, então é você que vai até a lanchonete pegar os hambúrgueres!”, um deles ordenou.
E lá foi ele, completamente sozinho pelas ruas do bairro nas altas horas da noite, atravessando o centro de sua cidade para pegar hambúrgueres. Se pelo menos tivesse um carro, as coisas seriam mais fáceis.
Todos vocês já perambularam por aí numa noite de sábado, e sabem como é. Os sábados à noite são para os sujeitos com grana ou com namorada, ou com as duas coisas. Meu amigo não tinha nem uma coisa nem outra, era apenas um moleque de dezessete anos indo rumo à lanchonete.
_ Cinco hambúrgueres e cinco guaranás, por favor.
O funcionário o olhou indiferente, fez suas contas, pegou a grana da vaquinha e deu-lhe um saco com uma pilha de hambúrgueres embrulhados para viagem.
Foi quando esse meu amigo teve a péssima idéia de pegar um atalho para chegar mais rápido.
Assim que entrou naquela rua escura, um sujeito mal-encarado o abordou e apontou um revólver em seu peito.
_ Passa a grana!
Como vocês já sabem, não havia grana. E o dinheiro da vaquinha tinha ido embora com os hambúrgueres.
_ Então passa essa camisa! – gritou o assaltante.
Era uma camiseta simples, daquelas compradas em atacado, e o cara não se deu por satisfeito. Não ia levar apenas uma simples camisa para casa.
_ Passa a calça também!
O problema é que o meu amigo estava sem cueca. Tinha caído na piscina usando sua cueca como sunga, e agora ela secava no varal da casa da turma.
_ Pelo amor de Deus, a calça não! – ele implorava para o assaltante.
O sujeito engatilhou o revólver e gritou “passa logo essa calça!”.
Sem outra opção, ele tirou a calça e a entregou para o assaltante, ficando completamente pelado no meio da rua.
Estar a pé, no centro da cidade, sem nenhuma roupa, após voltar da lanchonete, é o tipo de experiência que um garoto de dezessete anos não precisa passar.
Sem esperar por ajuda, ele disparou na direção da casa da rapaziada. Ao avistarem aquele cara nu correndo, segurando o saco (de hambúrgueres!), as pessoas abriam caminho e gritavam. Algumas começavam a rir e soltavam piadinhas do tipo “ei, você esqueceu o ketchup!”.
Foram os quatro quarteirões mais longos de sua vida. E também foi o saco de hambúrgueres mais pesado que carregou.
Chegou na casa dos amigos suado e ofegante, além de pelado, naturalmente. Tocou o interfone e gritou chorando para que lhe abrissem a porta. Seus amigos estranharam o desespero na sua voz e hesitaram antes de abrir, o que só serviu para aumentar seu suplício.
Ele era um moleque de dezessete anos sem grana e sem namorada, que tinha atravessado nu o centro da cidade num sábado à noite. Esse era um bom motivo para nunca mais sair de casa. Às vezes a vida te sacaneia pra valer.
A rapaziada abriu a porta e pulou para trás ao ver que ele estava pelado. Ofegante e muito furioso, ele entrou pela sala sem importar-se com o fato de estar nu, entregou com violência o embrulho da lanchonete, e então gritou: “Taí os seus hambúrgueres!”. Tinha esquecido o ketchup.

alalaô


A rua estava coberta de lama, e todos se divertiam. Sorriam, engoliam cerveja e rolavam pela água do esgoto. O som que pairava no ar era o das risadas e de alguns gritos ocasionais. Ainda não tinham começado a tocar as estúpidas músicas de axé. Era só o início do carnaval, e já estávamos cobertos de lama até o pescoço.
Cheguei no centro por volta das nove. Estava com fome e queria comer alguma coisa no shopping, mas era impossível atravessar a rua. Ela tinha se transformado no fluxo de um rio. Além disso, o shopping estava alagado. O shopping estava alagado e as ruas tornavam-se mar. Virei para o meu amigo, Luyalan, um bom sujeito, um cara grandalhão que compartilha do meu sarcasmo e do meu senso de humor maníaco, e falei:
_ Acho melhor a gente ir pra São Pedro.
Ele analisava a rua, os bueiros cuspindo água suja como se vomitassem em cima dos foliões.
_ Talvez você tenha razão. Mas como vamos voltar de lá?
_ Não sei, mas dane-se. Olha só pra isso. Pior não pode ser.
Nenhum de nós estava disposto a enfiar o pé no esgoto. Não estávamos apropriadamente trajados para isso. Pegaríamos o próximo ônibus.
_ Se vamos ir, é melhor a gente ir logo. Daqui a pouco vai começar o axé e a coisa toda vai se transformar num verdadeiro inferno – eu disse.
Não tínhamos nada contra o carnaval. Estávamos dispostos a nos divertir, no duro. Estávamos dispostos a escutar axé music pelos próximos quatro dias, mas tudo muda de figura debaixo de lama.
Luyalan contemplava a frustração carnavalesca, a persistência dos bêbados que mergulhavam nos dejetos em troca de algumas risadas, e lembrou-me de que talvez São Pedro não estivesse muito diferente. São Pedro era noventa por cento de terra batida, e devia ter se transformado num pântano. “Que droga, você tá certo”, lamentei.
Para piorar, a chuva apertava. Luyalan começava a se desesperar, e ficava repetindo para si mesmo “isso não é um carnaval! Isso não é um carnaval!”. Eu também não me sentia nos meus melhores dias, mas procurava me conformar. Afinal, como contrariar a chuva? Como contrariar as forças da natureza, que não se importam com os feriados? Não nos restava nenhuma alternativa, tudo que podíamos fazer era esperar. Nos ajeitamos debaixo de uma pequena marquise e ficamos ali, parados, pela maior parte da noite. Encontramos com um punhado de amigos, mas já estavam muito bêbados para nos reconhecer. Enquanto aguardávamos pelo fim do primeiro dia de carnaval, rabisquei um poema num pedaço de papel. Ficou mais ou menos assim:
a vida é como um dia de chuva,
você espera
e espera e espera,
até que possa sair pra rua
e enfiar o pé na lama.
Aquilo me fez rir. Era o tipo de poema que me divertia, o tipo que ofendia a maioria das pessoas. Por algum motivo elas me preferem lírico. Sim, escrever o troço me distraiu por alguns minutos.
A chuva não passou e alagou a cidade. O carnaval, ao contrário, passou, debaixo de lama, de risadas, de divertimentos esporádicos.
Na madrugada do último dia vi um travesti sentado num bloco de pedra. Parecia ter acabado de sair do desfile, pois não vestia nada além de uma tanga decorada com paetês e purpurina. Sentava-se curvado, com o rosto escondido nas mãos, numa posição de lamento. Uma pena azul pendia da sua cabeça careca. Talvez ele fosse o carnaval, alguém sem sexo e sem tempo que senta choroso num bloco de pedra no meio da noite, ou talvez apenas um travesti lamentando por tudo o que perdia, por tudo o que eternamente perdia.
Esse foi o carnaval. Lírico o bastante pra vocês?

ZUMBIS

Algumas vezes você simplesmente está otimista. Um otimismo bobo sem qualquer significado, frágil e irrelevante como um vaso de cristal barato. Ainda assim, você veste sua melhor roupa e tudo está bem. São momentos em que você não tem dor de cabeça, e sorri para todo mundo. Tudo está perfeito, mesmo no calor mais forte dos últimos tempos, mesmo na falta d’água que o impede de tomar banho e faz com que você saia na rua maltrapilho, fedendo como um cachorro vira-lata cheio de sarnas. São dias no meio da semana que soam como um sábado de sol ou uma noite de sexta.
Geralmente as pessoas não correspondem ao seu otimismo. Olham para você como se diante de um maníaco perigoso ou, na melhor das hipóteses, de alguém digno de pena.
Não é novidade para ninguém que a incompreensão gera a hostilidade. Quando farejam o seu otimismo as pessoas tentam derrubá-lo, tentam colocar você pra baixo. É como nas novelas, onde o vilão planeja frustrar os planos do mocinho e tomar-lhe a mocinha dos braços. É assim que acontece na vida real.
As pessoas são zumbis. Elas acordam cheias de lamúrias e se arrastam pelas calçadas, como se carregassem bigornas nas costas. Caminham para o trabalho com os corpos curvados, os olhos ardendo, farejando felicidade. E quando encontram alguém repleto de otimismo, tentam transformá-lo no que elas são: zumbis... Pobres zumbis infelizes.
Você entra numa sala cheia de gente infeliz e todos o cumprimentam com sorrisos ensaiados. Dirigem-se à prateleira de cds e colocam um Paranoid pra tocar no volume mais alto, logicamente tentando te enlouquecer. No entanto, a música é música para os seus ouvidos. E você diz que Paranoid é sua canção preferida do Sabbath, e pede uma bebida para o anfitrião. Todos olham para você como se quisessem matá-lo. O dia passa e chega a noite. E ela passa e você vai embora numa escuridão sem lua, sentindo-se feliz por existir, por ser quinta-feira, pelo ar do novo século. Sentindo-se um tremendo de um sortudo.
Você já deve estar percebendo que o objetivo dos infelizes, dos zumbis, não é frustrar as suas metas, não, é mais sutil que isso. Eles não pretendem roubar a sua namorada ou fazer com que você seja despedido do trabalho ou viciá-lo em água tônica. Essas coisas são pretextos. O que querem mesmo é reduzir sua alma a um caco. Querem que você se arraste para casa reclamando da dor nas costas e que case com uma baranga e sente na poltrona para o resto da vida. O verdadeiro objetivo dos zumbis é acabar com o seu otimismo, eles sabem que o otimismo gera realização, até mesmo aqueles otimismos vagabundos que se parecem com bibelôs baratos.
Eles não suportam esse tipo de coisa, pois a subvida dos zumbis resume-se a contar os comprimidos, decorar o caminho de casa, abaixar o volume do aparelho de som e fundar partidos políticos para que possam balançar alguma droga de uma bandeira.
Então é isso aí, cara, continue otimista. Mas cuidado para não se tornar um daqueles vasos de cristal balançando na beira da estante.
Jamais desista. A desistência é uma maneira covarde de sair pelos fundos. A desistência é a porta da casa dos zumbis, é o quintal esculhambado da chácara dos pobres coitados que se debatem pela vida. É como dizia o tal do Dante, na porta do inferno está escrito: aqui entram aqueles que perderam a esperança.
Até outra hora, cara. E não pegue a saída dos fundos, não pegue a saída mais fácil, a saída de serviço, aquela que vai desembocar numa droga de um beco sujo pela chuva, onde o pessoal senta para chorar.