Quem sou eu

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Uma alma morta porém ressuscitada. Um soldado maníaco com uma metralhadora que cospe fogo e palavras. E nas guerras das palavras eu sou veterano. Eu sou o homem-tigre. Somewhere in hell, i'm still typing.

sexta-feira, 11 de março de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

domingo, 7 de junho de 2009

O ESQUEMA

Sentei-me num banco da praça e permaneci por duas horas. Ainda estava dia, e quando me levantei já era noite. Uma noite imperceptível, como tantas outras.
Em cidades pequenas a rotina se torna mais visível. A rotina se revela inteira, sem vergonhas ou segredos, diante dos nossos olhos. As grandes metrópoles também são pontuadas pela rotina, mas nas cidades pequenas não podemos desviar os olhos dela. É impressionante; tudo o que você vê, você já viu antes.
As pessoas parecem ligadas por telepatia, como uma grande esponja, uma colônia de bactérias, bactérias que juntas tornam-se uma única forma de vida... e bóiam pela água parada, rastejando pelo limo, procurando comida. Como se suas mentes estivessem conectadas umas às outras pela corrente psíquica da rotina.
Subitamente, as ruas vazias se encheram de gente. As pessoas apareceram no mesmo horário; pontuais. Um batalhão de formigas marchando em direção às ruas, todas exatamente no mesmo instante. Era engraçado o modo como as pessoas pareciam ter combinado para surgir naquele mesmo momento. Suas mentes funcionavam como um relógio.
Olhei para um local qualquer de uma esquina qualquer e lá estava o sujeito que todas as noites, no mesmo horário, aparecia por lá e se recostava no poste. Então olhei para os lados e me deparei com os mesmos rostos, sentados nos mesmos bancos, virados para a mesma direção. Era horrível e cômico ao mesmo tempo. Eles não podiam evitar. Eram peças no grande tabuleiro da Rotina.
Você deve estar se perguntando, “por que diabos não fazem alguma coisa para mudar essa condição miserável?” Cara, não seja tão duro com as pessoas. Não vamos condená-las, tá legal? Além do mais, VOCÊ também faz parte do esquema da rotina, e EU também. Não estou salvando os nossos rabos!
Mas não fique aí imaginando que as pessoas não pensam em grandes mudanças. Elas pensam, mas a questão é que as grandes mudanças em que pensam hoje são as mesmas grandes mudanças em que pensaram ontem. Até as mudanças e as guinadas são consumidas pela rotina.
Os carros pareciam iguais e cruzavam as esquinas com seus motores possantes, sempre ultrapassando os mesmos sinais vermelhos. Sabiam que não chegariam longe, por isso não esperavam muito da vida. As conversas da garotada que se aglomerava à minha frente eram as mesmas conversas de todas as noites, e eram acompanhadas por risadas que explodiam exatamente nos mesmos instantes. Se me afastasse deles e me aproximasse do pessoal mais velho, escutaria as mesmas lamentações, as mesmas indignações; todos aqueles ditos adultos com os mesmos problemas. Todos sem cabelos, sem dentes, sem visão, sem sentido, sem esperança, tagarelando com suas vozes tediosas. Nas metrópoles essas coisas se espalham ao longo da orla marítima e dos arranha-céus, nas cidades pequenas fica tudo diante do seu nariz.
Pensei, “que droga, não consigo parar de pensar na rotina, exatamente como faço todos os dias!”. Talvez a rotina seja necessária, seja uma forma de garantir que a chatice será perpetuada através das eras, exatamente como as baratas.
Então apareceu aquele sujeito atravessando a praça: gordo como uma baleia, meia-idade, uma barba gordurosa no rosto, os olhos pequenos atrás dos óculos, os cabelos emaranhados. Carregava uma porção de embrulhos. Tropeçou nos próprios pés e caiu de barriga no chão. Os embrulhos voaram para todos os lados. Sua bunda ficou aparecendo, suada e branca, e os olhos arregalaram quando os embrulhos rolaram pelo chão. Disparei a gargalhar, até que as lágrimas escorressem pelas minhas bochechas. Algo tinha quebrado o esquema.

domingo, 31 de maio de 2009

EU SOU ELVIS PRESLEY


Eu sou Elvis Presley. O Elvis das letras. É, eu sei, soa pretensioso pra caralho, mas é verdade. No que me propus a fazer com essas letrinhas miúdas e pretinhas, fiz como Elvis. Entrei nos estúdios da Sun e, com um pouco de insegurança, disse:
Não me pareço com ninguém.
Como Elvis, eu estava errado.
O garoto caipira de Tupelo quis não se parecer com ninguém, mas escolheu pra debutar com uma canção de Ella Fitzgerald interpretada como Dean Martin. Pois é. Meu caro Elvis, nem sempre você foi original. Diabos, aos 18 anos ninguém é original. Mas voltando ao MEU umbigo... eu também me parecia com um monte de gente; também queria não me parecer com ninguém.
Peguei aquelas pilhas de livros e hordas de autores e fiz a minha saladinha particular de assombrações. Às vezes, eu cuspia Byron na fuça da cidade. Às vezes, mandava uma escarrada de Bukowski a plenos pulmões. Outras vezes, rascunhava o próprio Elvis nos parágrafos.
Assim, aos trancos e barrancos, com mil disfarces e cinco mil fantasias, segui em frente, querendo não me parecer com ninguém e me parecendo com todo mundo. Pois é. A verdade é que todo mundo se parece com todo mundo. Mas pelo menos eu me parecia com todo mundo que estava MORTO, o que me garantia um bom pedaço no palco do egocentrismo. A coisa fica um tanto quanto chata quando nos parecemos com todo mundo que está vivo.
Mas eis que... BANG! Como Elvis, lá estava eu, conseguindo, conseguindo! Finalmente, não me parecia com ninguém. Foda-se Byron, foda-se Bukowski, foda-se Elvis, foda-se Nelson Rodrigues e Machado de Assis. Agora, eu era só eu (e uso e abuso dessa palavrinha maravilhosa de duas letras: eu, eu, eu). E nisso me parecia com Elvis: não me parecia com ninguém. Demorou, mas aconteceu.
Está vendo como não há pretensão alguma nisso? Quando digo que sou o Elvis Presley das letras, não estou perdendo tempo com essa baboseira de rei, maior do mundo, melhor que todos, ser supremo ou coisa que o valha. Me pareço com Elvis porque me pareço comigo. Porque conquistei a minha voz. A minha maneira. My Way.
Aqui estou, cara. Sozinho, comigo mesmo. Com minhas próprias letrinhas cuspidas, escarradas, cagadas e por vezes encantadas. E são as MINHAS letrinhas. Não alguma cópia carbono de algum estúpido fantasma ou – pior ainda – de um vivo débil mental que perde tempo por aí.
Alguns dizem que é coisa da idade. Pessoalmente, DETESTO esse papo de idade, nem pra cima nem pra baixo. Como disse o meu Orkut, toda geração se acha mais inteligente que a anterior e mais sábia que a seguinte. Por isso, idade é papo furado. Outros dizem que tem a ver com experiência. Coisa que também não faz muito sentido, pois você pode ter toda a vivência do mundo e continuar sendo o mesmo paspalho de sempre. Seja lá como for, é muito bom quando você consegue falar com sua própria voz. ESCREVER com suas próprias letrinhas. É infinitamente melhor do que falar, escrever e gozar com fantasmas de pano de chão, por mais grandiosos que esses fantasmas sejam.
Ser Elvis Presley (ou Daniel Frazão, escolha o nome que soar melhor) é um paradoxo. Assim como aconteceu com o pobre Elvis quando se afastou dos holofotes para servir ao exército, agora que saí de cena desponta a enxurrada de Fabians, Paul Ankas e Pat Boones, querendo fazer igual e querendo não se parecer com ninguém. Ai, meu saco...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

1978


Nasci em 1978. O filme que estava em cartaz era Os Embalos de Sábado à Noite. Ou talvez Grease. Como no Brasil os filmes chegam atrasados, provavelmente era Os Embalos de Sábado à Noite.
Agora, assisto o presente passar por mim real e indiferente, sempre tão frágil, e penso numa série de coisas. Foi ano de copa do mundo. O Brasil jogava no dia exato em que nasci, na hora exata. Perdeu. De certa forma foi melhor assim, porque fez com que os médicos retornassem à sala de parto.
John Lennon ainda não tinha tomado o tiro na cuca. Ocupava-se em lavar roupa e levar criança pro zoológico. Um tempo depois, no ano em que morreu, lançou o Double Fantasy, um disco impregnado com esse clima de lavar roupa e levar criança pro zoológico, o que de certa forma acabou soando legal. Mas voltando a 78... Elvis ainda estava fresco no caixão. Encontrei com ele. Coincidimos de pegar o mesmo elevador, eu descendo e ele subindo. Elvis olhou pra mim, naquele silêncio dos elevadores, e disse: “E aí garoto, o que é que você vai fazer lá embaixo? Rock?”. Respondi que não sabia o que ia fazer e então ele me desejou boa sorte.
Village People, meu amigo, era a bola da vez!
Ano estranho, o ano em que nasci. Computador era coisa pra maluco espacial. Bill Gates era um carinha qualquer, de espinhas na cara. Ha, ha. Pensar que um dia eu já tive mais grana que ele...
Ainda não estavam armando o rebu das células-tronco, isso porque o super-homem ainda era super-homem.
As pessoas usavam costeletas e golas enormes. Achavam bonito. Mas se você parar pra pensar, nós também achamos bonito um punhado de coisas que logo parecerão sem sentido. A vida se mostra um simples acúmulo de momentos sobrepondo-se uns aos outros, enquanto dizemos um adeus eterno.
Spectroman era o único programa japonês que passava na televisão. Os caras do CHIPS mandavam no pedaço. E na telona Luke Skywalker reinava supremo. Em 78, você precisava saber o que era um sabre de luz.
Aqui pelo Brasil as coisas estavam esfriando. O pessoal já estava cansado de caminhar e cantar, e só queria sentar um pouco, recuperar o fôlego. Ninguém consegue ser tropical o tempo todo. Começávamos a nos conformar com a miséria humana. Depois de levar muita porrada, acabamos chegando à conclusão de que o melhor era imaginar que os murros não passavam de beijos. Que o horror era amor. Que o silêncio era música. Que o VAZIO era TUDO o que existia.
Foi um ano pra lá de estranho.
Fico me perguntando o que faria se enxergasse todas essas coisas no instante do meu nascimento. O que faria se não fosse apenas um bebê e enxergasse o passado e o futuro brilhando com os bisturis, bem à minha frente? Teria noção do que estava por vir? Ah, 1978... você foi só o primeiro deles! Naquela época eu não podia imaginar que estaria aqui, escrevendo confissões para desconhecidos. Naquela época o ano de 78 me passou tão batido, tão efêmero, tão liso quanto a própria vida, que não imaginei que estaria aqui falando dele, vinte e seis anos depois. E você? O que ganhou dos seus dias estranhos? O que define o que você foi e o que vai ser para toda vida? O que viu em primeiro lugar? O que acha que verá por último?
Se algum dia eu encontrar novamente com o Elvis no elevador (desta vez eu subindo e ele descendo) vou desejar-lhe boa sorte. O cara vai precisar. E vou lhe perguntar se vai fazer rock, e ele vai dizer que não, pois já fez isso da última vez.
_ E você, garoto, o que fez lá embaixo? – ele irá me perguntar.
Coçarei o queixo, olharei pensativo para o teto e direi, mais para mim do que para ele: “Taí uma boa pergunta...”